* Por Mauro Biazi

Puxando pelas lembranças quase posso assistir aquele vai e vem na sala de projeção do Cine Guará. Era um desce e sobe, ora pela direita, ora pela esquerda, descendo pelo centro, subindo pela esquerda, roçando a cortina vermelha aveludada, de novo descambando pro lado da telona, outra vez subindo pela direita, parando em frente ao palco...sem perder de vista alguma mocinha de blusa banlon com gola rolê, ou de saia plissada, laquê no cabelo, discreto batom da Coty e fragrância Avon.

O trotoir no Cine Guará exigia, pra início de conversa, uma roupa domingueira. Não era assim nenhum luxo mas um certo bom gosto na vestimenta contava pontos na hora de ver e ser avistado.

Eram jovens imberbes, ostentando seus 15, 16 anos, cheirando a alguma lavanda adquirida na Farmácia Globo, imponentes e vistosos em suas calças US Top, Topeka e, o suprassumo, uma Lee. Elas de calça Saint Tropez, e todos na saudável arte da paquera.

O filme até atraía a atenção, ainda mais quando projetavam naquela tela imaculada algum romance tipo Sissi, a Imperatriz, Doutor Jivago, Romeu e Julieta, Dio come ti amo..e outros do gênero lágrimas e lenços. Porém, o que nos atraía feito mariposa em lâmpadas noturnas das ruas desertas era um encontro, um roçar de mãos, um olhar profundo carregado de promessas de te amar para a vida inteira.

Ô saudade louca! Uma sessão dominical da sétima arte no Guará corresponderia, nesses tempos dilacerantes, a 100 sessões num psicólogo, se bem que poucos pareciam precisar deles naqueles anos dourados. Enfim, cinema aos domingos era um dos únicos programas que a pacata cidade ofertava, e o mais apreciado.

E quando as luzes estavam quase apagando, aqueles jovens, alguns timidamente de mãos nos bolsos, tentavam capturar algum sinal, um olhar, uma piscadela inocente para pousar delicadamente junto à presa que fora conivente com seu olhar 43. Olhares trocados, sinais corporais, -sim, o corpo fala, e eu só vim aprender isso numa disciplina de jornalismo na UEL- era o que os caminhantes e suas promessas de amor eterno no Guará tanto esperavam.

Então se instalava um certo burburinho, alguns atropelos, passos apressados, uns dá licença para o espectador que se aboletara na ponta, a cadeira Cimo rangendo ao sentar, eis os ruídos que se ouvia instante após as luzes serem apagadas para as primeiras imagens brotarem magicamente na tela branca.

-Aceita uma bala Déa?

-Como você adivinhou que é a minha bala favorita?

-Ora, lí no caderno de confidências que você respondeu.

-Ai que vergonha...

-Fica com vergonha não. Mais uma bala Déa? Posso pegar na sua mão?

E o filme rolando. Mas, que filme mesmo???

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Mauro Biazi

Mauro Xavier Biazi, jornalista/escritor/fotógrafo/promotor de eventos culturais/ gastronômicos, e uma infinidade de outras atividades, usa das palavras para rascunhar recortes de uma vida de tantos feitos e fatos.

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